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Como funciona o Tesouro Direto: guia completo para começar

Entenda os tipos de títulos, rentabilidade, tributação e como montar uma carteira de Tesouro Direto adequada ao seu objetivo.

Marcela Andrade
Marcela Andrade
05 de junho de 2026 · 11 min de leitura
Ilustração de prédio do Tesouro Nacional com gráfico ascendente em dourado

Tesouro Direto é o programa de venda de títulos públicos federais para pessoas físicas, criado em 2002 pelo Tesouro Nacional em parceria com a B3. Em termos práticos, ao comprar um título você empresta dinheiro ao governo brasileiro e recebe juros pagos com a garantia da União. Por trás disso, há uma operação simples: o Tesouro precisa financiar a dívida pública e prefere fazê-lo diretamente com cidadãos, em volumes pequenos, em vez de depender exclusivamente de grandes investidores institucionais. Para o investidor, é o caminho mais barato e mais seguro de entrar em renda fixa no Brasil.

Antes do Tesouro Direto, a renda fixa pública era acessível apenas via fundos de investimento, que cobravam taxas relevantes e exigiam aplicações mínimas altas. Hoje, com cerca de R$ 30 é possível comprar uma fração de título, com custódia barata e liquidez garantida pelo próprio Tesouro. Esse arranjo transforma o programa na principal porta de entrada para quem está começando — e também em uma ferramenta sofisticada para investidores experientes calibrarem a parte conservadora da carteira.

Os três grandes tipos de títulos

Apesar do nome, existem várias modalidades dentro do Tesouro Direto, mas todas se encaixam em três famílias: pós-fixados, prefixados e híbridos atrelados à inflação. Cada uma serve a um propósito específico, e usar a errada para o objetivo errado é a fonte número um de prejuízo entre quem investe nesse mercado.

Tesouro Selic (LFT)

É o título pós-fixado, atrelado à taxa Selic, ou seja, a rentabilidade acompanha o juro básico da economia em tempo real. Por essa característica, o preço de mercado oscila muito pouco no curto prazo, mesmo em períodos turbulentos. Isso torna o Tesouro Selic praticamente obrigatório para reserva de emergência e para objetivos de curto prazo (até dois anos), em que qualquer perda de capital seria inaceitável. A liquidez é diária — você pode vender em qualquer dia útil e o dinheiro cai em D+1, sem custo de saída e sem risco relevante de marcação a mercado.

Tesouro Prefixado (LTN e NTN-F)

Aqui você sabe exatamente quanto vai receber no vencimento, em reais. Se compra um título a 12% ao ano, leva 12% ao ano até o vencimento, independentemente do que aconteça com a Selic no meio do caminho. Isso é bom quando os juros estão altos e há tendência clara de queda — você 'trava' uma boa taxa por anos. É ruim no cenário oposto: se você precisar vender antes do vencimento e os juros tiverem subido, o preço de mercado terá caído, e você realiza prejuízo. O Tesouro Prefixado é indicado para metas com prazo conhecido (intercâmbio, entrada de imóvel, casamento) e para quem tem certeza de que conseguirá segurar o título até o vencimento.

Tesouro IPCA+ (NTN-B)

Combina uma taxa real prefixada (por exemplo, 6% ao ano) com a variação do IPCA, o índice oficial de inflação. Em outras palavras, garante que o seu dinheiro renda inflação mais um adicional fixo. Isso protege o poder de compra ao longo do tempo, o que faz desse título o veículo ideal para objetivos de longo prazo, especialmente aposentadoria. Há duas variantes: o Tesouro IPCA+ tradicional (paga tudo no vencimento) e o Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais (paga cupons a cada seis meses, útil para quem quer fluxo de caixa). Assim como o prefixado, o preço de mercado oscila no curto prazo, então não sirva para reserva, mas para metas de 10, 20, 30 anos é dificilmente superado.

Tributação e custos: o que você realmente paga

Toda a tributação de renda fixa pública segue a tabela regressiva do IR, retida automaticamente na fonte no momento do resgate. Isso significa que você não precisa preencher nem recolher DARF manualmente — a corretora cuida disso. A alíquota cai conforme o tempo de aplicação, premiando quem tem horizonte de longo prazo.

  • Aplicações até 180 dias: 22,5% sobre o rendimento.
  • De 181 a 360 dias: 20%.
  • De 361 a 720 dias: 17,5%.
  • Acima de 720 dias: 15%.

Há também IOF regressivo nos primeiros 30 dias (de 96% sobre o rendimento no primeiro dia até zero no 30º), o que torna o Tesouro inadequado para movimentações muito curtas — abaixo de um mês, praticamente todo o ganho é consumido. Além do IR, o investidor paga taxa de custódia da B3 de 0,20% ao ano (com isenção para saldos pequenos em Tesouro Selic) e, eventualmente, taxa de administração da corretora, embora a maioria das principais corretoras isente essa cobrança há vários anos.

Como começar a investir, passo a passo

O processo é mais simples do que parece. Você não precisa de auxílio de gerente nem de aplicação mínima alta. Com qualquer corretora regulada pela CVM e cerca de R$ 30, já é possível começar.

  1. Abra conta em uma corretora regulada (Rico, XP, NuInvest, Inter, BTG+, entre outras).
  2. Transfira o valor que deseja investir via Pix ou TED, sem custo na maioria das corretoras.
  3. Acesse a área de Tesouro Direto da corretora e selecione o título adequado ao seu objetivo.
  4. Confirme a compra; o valor mínimo é cerca de R$ 30, comprando uma fração do título.
  5. Acompanhe pelo extrato; o resgate, quando solicitado, cai em D+1 (um dia útil).

Erros comuns que custam caro

Tesouro Direto é o investimento mais seguro do país do ponto de vista de crédito, mas usá-lo do jeito errado pode gerar perdas reais. A maior parte dos prejuízos não vem do governo deixar de pagar — vem do investidor escolher o título errado para o prazo errado e ter de vender no pior momento.

O risco do Tesouro Direto não está no governo. Está no descasamento entre o título escolhido e o objetivo real do investidor.
  • Comprar Tesouro Prefixado para reserva de emergência: a marcação a mercado pode entregar perdas relevantes em meses de alta de juros.
  • Vender Tesouro IPCA+ longo antes do vencimento, quando os juros sobem, transformando uma perda contábil em prejuízo real.
  • Ignorar o IR no momento do resgate e planejar gastos baseado no valor bruto da tela.
  • Concentrar 100% do patrimônio em um único vencimento, sem diversificar prazos e exposição.

Como montar uma carteira por objetivo

A regra de ouro é casar o título com o prazo do objetivo. Quanto mais próximo o uso do dinheiro, mais conservador deve ser o título. Quanto mais distante, mais faz sentido aceitar volatilidade em troca de rentabilidade real superior.

Curto prazo (até 2 anos)

100% Tesouro Selic. A liquidez diária e a quase ausência de oscilação são insubstituíveis para reserva de emergência, capital de giro pessoal ou objetivos próximos. Mesmo que apareça uma 'oportunidade' de prefixado parecendo mais rentável, não vale o risco para esse prazo.

Médio prazo (3 a 10 anos)

Combinação de Tesouro Prefixado e Tesouro IPCA+ médio (vencimentos até 2035, por exemplo). A ideia é travar taxas reais atrativas quando os juros estiverem em patamar elevado e carregar até o vencimento. Para esse horizonte, faz sentido aceitar volatilidade no meio do caminho em troca de previsibilidade no final.

Longo prazo (10 anos ou mais)

Predomínio de Tesouro IPCA+ com vencimentos longos (2045, 2055 ou semestrais para quem quer fluxo). Esses títulos protegem o poder de compra durante décadas e funcionam como base sólida da estratégia de aposentadoria. Combinar com outros ativos (ações, FIIs, previdência) faz parte de uma carteira completa, mas o núcleo de renda fixa de longuíssimo prazo praticamente exige o IPCA+ longo.

Marcação a mercado: o conceito que assusta quem não entende

A marcação a mercado é o mecanismo que faz o preço dos títulos prefixados e IPCA+ oscilar diariamente, mesmo que a remuneração combinada na compra esteja garantida no vencimento. Funciona assim: quando as taxas de juros sobem no mercado, títulos antigos com taxas menores perdem valor relativo, porque qualquer investidor agora exige rentabilidade maior. O contrário também é verdade — quando as taxas caem, títulos antigos com taxas mais altas valorizam, porque ninguém quer abrir mão deles. Para quem leva o título até o vencimento, essa oscilação não importa: você recebe exatamente o que foi contratado. Para quem precisa vender antes, é onde mora o risco real.

A boa notícia é que a marcação a mercado também é oportunidade. Em períodos de juros muito altos, comprar IPCA+ longo trava taxas reais raras (acima de 6% ao ano) por décadas, e qualquer queda futura de juros valoriza o título no curto prazo, permitindo lucro adicional se houver venda estratégica antes do vencimento. Entender essa dinâmica transforma o Tesouro Direto, de instrumento simples de renda fixa em ferramenta ativa de alocação patrimonial — usada com critério por planejadores experientes em janelas específicas do ciclo econômico.

Perguntas frequentes

Tesouro Direto é melhor que poupança?

Sim, em praticamente todos os cenários. O Tesouro Selic rende próximo a 100% da Selic, enquanto a poupança rende 70% da Selic mais TR. Mesmo descontando IR e custódia, o Tesouro vence com folga, com a mesma garantia da União por trás.

Posso perder dinheiro no Tesouro Direto?

No vencimento, não. Antes dele, sim, no Tesouro Prefixado e no IPCA+, por causa da marcação a mercado: o preço do título oscila conforme as expectativas de juros mudam. O Tesouro Selic é o único com baixíssima oscilação diária.

Qual o valor mínimo para começar?

Cerca de R$ 30, comprando uma fração de título. Esse limite torna o Tesouro Direto acessível a praticamente qualquer pessoa, inclusive estudantes e quem está começando a primeira reserva.

Vale a pena ter Tesouro em conjunto com CDB?

Sim. Tesouro Selic e CDBs de liquidez diária se complementam: o CDB de banco médio costuma pagar um pouco mais, com proteção do FGC; o Tesouro é o ativo de menor risco do país. Diversificar entre emissores e tipos reduz riscos específicos.

Marcela Andrade
Marcela Andrade
Editora-chefe • Finanças Pessoais

Planejadora financeira CFP® com mais de 10 anos cobrindo investimentos, bancos digitais e educação financeira no Brasil.

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